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sexta-feira, 16 de julho de 2021

Às Giras

No girar da roda.


eu amo coisas giras...
girafa, girassol, gira-discos.
amo coisas giras:
cata-ventos, piões, carrossel.
coisas giras...
canções, cantigas, amor.
giras
anas, mônicas, adrianas,
tatianas, márcias, rosas,
cláudias, catarinas...
gira-mundos.
pombas-giras.


PAR 2021




terça-feira, 22 de dezembro de 2020

3 poemas a 3 poetas que me enlouquecem de prazer e dor...

...


Poema perdido de Baudelaire.


Esta será a última que ouvirás de mim,

flor perniciosa murcha.

Silencioso grito!


Manchado de sangue.

Um segundo, um momento,

então a sombra desaparece…

 

… de um coração desolado!


PAR 2020

 


Lovecraft me deu um coração partido.

 

A cortina fecha!

Uma aversão eterna…

ainda assim continuamos em pecado.


No final, a sombra desaparece,

ficamos privados de sua luz para sempre…

 

Em loucura eternamente.


PAR 2020



O Natal picante de Allan Poe.

 

Bochechas de sangue.

Visão sombria, atormentada.

 

Triste natal vazio!

Uma jarra vazia sobre a mesa,

um coração vazio quebrado à mão.

Um sorriso azulado.

Um raio, um instante…

 

Que descanse em paz!

 

PAR 2020





sábado, 2 de julho de 2016

Monumento



Se não me falha 
a memória...
já me esqueci de ti.
Dispensa argumentos
dispersa os factos
enfatizo a ideia
de que se bem
me lembro
esqueci-me de ti.
Salvo opinião em
contrário ou decisão
de revogação
até segunda ordem
pretendo sempre
lembrar-me de que
já me esqueci de ti.

07 PAR 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Disfunção



Deitei minhas feridas
sobre a mesa
e pus e gangrena e dor
pus os pratos e os talheres
e cortes e torniquetes
estanquei o sangue
deitei pus pelas feridas
abri as cicatrizes ao ar
e me doí profundamente
cortei alguns pulsos
e ouvi bater à porta
ritmo certo 
harmonia perfeita
batida de samba
deitei-me sobre o sangue
jorrei pus e saliva
deixei-me digerir
por mim mesmo
até coagular-me.

PAR Junho 2016

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Turva Tarde



A tarde parda,
pombos, pardais.
A tarde perde-se
em gritos, perdões.
A tarde urde dramas.
Trama seus tiros
e pessoas morrem
aqui, na Bahia, na Flórida.
A tarde trava vontades,
limita desejos.
A tarde é uma puta do
caralho que a foda...
A tarde chove e move
nuvens no céu 
de areia.
A tarde prova 
do sangue de todos.
A tarde é sempre
tarde demais.

PAR 2016

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Amor Tecido




Meu amor por que me dás essa dor
de distância tão sozinha e dura
por que me deixas à tua espera
em adoração lenta e insegura?

Meu amor, por que somes
quando mais te preciso
por loucuras que me consomem
entre o mundo dos mortos e o dos vivos?

Meu amor, por que me deixas
assim de pau duro sem teus orifícios
assim enrolado nos meus próprios vìcios
a respirar de memória teu acre perfume?

Meu amor, por que insistes em não vir
quando as folhas já caíram de tanto outono
quando não sei mais onde ir
quando o que me resta é o infinito do sono?

Meu amor, por que me fazes queimar
assim lentamente em teu lume
navegar perdido e sem mão no leme
mergulhar de cabeça na lama que geme?

Amor de verdade, não se teme.

PAR + Dante
29.12.2014

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Meia-volta Volta e Meia

Estive a pensar numa forma
e surgiu-me um círculo...

Circulei à sua volta
redondo como eu podia ser...

Sem arestas pra me podar
Apenas curva a tontear os pés...

lamber o chão
criar vínculos

e ao pensar numa forma
minha cabeça anda à roda

Roda de não saia, gira de não caia,
rabo de arraia que vira moda

te convido pruma festa
e o que resta, que se foda

em roda, à roda... por foda?
que seja boa mesmo que mal dada

mal dada? maldade...!
relaxa que tudo encaixa

e a volta e a roda e em volta
tudo anda outra vez à roda

rodopiei em rodamoinho
sozinho na roda da vida rodei

rodo pio giro cio meto tiro
no centro do alvo acerto um tiro

cai de joelhos um breve vazio 
delicadamente, sem pertencer a ninguém 

sem nitidez morre entre versos
com a boca seca de silêncios

Os vazios se revelam
Em obras póstumas...

páginas rasgadas, submersas
esquecidas, páginas viradas.

Letradas em pensamentos
Que o poeta engavetou...

Trancou, lacrou, 
Como corpos em tumba funda

beija, beija, beija rápido 
e fecha o caixão.


Criação do Coletivo Uni-Versos Poéticos.



http://www.linguafiada.com/2014/01/meia-volta-volta-e-meia.html

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

180763



... "Recuaram esses como puderam, Há ali mortos, há ali mortos, repetiam, como se os próximos a morrer fossem eles, em um segundo o átrio voltou a ser o remoinho furioso dos piores momentos, depois a massa humana desviou-se num impulso súbito e desesperado para a ala esquerda, levando tudo à sua frente, desfeita a resistência dos contaminados, muitos que já tinham deixado de o ser, outros que, correndo como loucos, tentavam ainda escapar à negra fatalidade. Em vão corriam. Um após outro, todos foram cegando, com os olhos de repente afogados na hedionda maré branca que inundava os corredores, as camaratas, o espaço inteiro. Lá fora, no átrio, na cerca, arrastavam-se os cegos desamparados, doridos de golpes uns, pisados outros, eram sobretudo os anciãos, as mulheres e as crianças de sempre, seres em geral ainda ou já com poucas defesas, milagre foi não terem saído disto muitos mais mortos para enterrar. Pelo chão, espalhados, além de alguns sapatos que perderam os pés, há sacos, malas, cestos, a derradeira riqueza de cada um, agora para sempre perdida, quem vier aos achados dirá que o que lá leva é seu."...

de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Arcano 13



Magmático tesão sem sentido a brotar em pus do corpo morto esquecido na cristaleira sob teus pés o vidro das minhas retinas resistia imperturbável como um navio que afunda num mar de gozo de pantera negra arrepios.
O caminhão da mudança chegou.
A cristaleira era da minha avó muito cuidado com ela.
Mandaste mudar o número do telefone?
Deste a nova morada aos meus inimigos?
Não te esqueças do teu amante digo nosso ao final das contas ele sustenta aos dois.
Acho que a cristaleira não vai caber na sala…
Merda o espelho rachou são sete anos de convivência para nós e para os outros toquei no verde a sorte é minha.
Penteia os cabelos antes de sair em devassa tua intimidade não leves material de limpeza não dá sorte dizem…
Onde raios terei eu metido tuas cartas?
Mau presságio virado o treze em arcano maior.
Eles não sabem do mar nem dos peixes morte morte morte ao amor.
Cheiro de peixe e casa nova a rasgar células olfactivas há crianças na casa ao lado vidraças partidas e futebol de rua condomínio fechado e porteiro electrónico.
A cristaleira não cabe ou ela ou eu ou nós a voz dos tempos ecoada na base das paredes rebentamento em teclas de um piano tilintar de cristais embalados pelo vento.
Alucinações e aves de prata cruzam o tecto em revoluções intermináveis aves rapinadoras no umbigo do mundo a sangrar o cordão umbilical a devorar a placenta ébria do útero da mãe dos nossos monstros mofados de paus e pedras nossos ossos vazios a chacoalhar em falhas sísmicas teus fantasmas e meus calmantes a tilintar no gelo dos copos das visitas.
Vamos dormir que as visitas querem ir-se embora.
Coloque os copos na cristaleira.
Vamos ninar nossas incompletudes e formas astrais desvanecer as auras escorregar na seda dos edredões e uivar dar vivas uivar…
Casa nova vida velha vida imensa e curta.
A vida dura a erecção de um pénis um pau duro um acto um facto história cíclica.
A vida é uma beata no cinzeiro de Deus. (Sobre uma cristaleira.)

PAR - PT

Conto com Desconto



Quero ainda beijar tua boca provisória como me contasses histórias de tempos futuros de sais de rendas e saltos altos.
Busco ainda possuir-te pela metade desde que por inteiro reflectir-te como narcisista espelho mostrar-te tua carne rija salivar-te a seco toda.
Vou por teu nome na boca do sapo e costurá-la depois beijá-lo até fazer-se príncipe em desencanto.
Queria gritar nos teus ouvidos até ecoar teu sexo em vibratória inércia apaixonada.
Mas como qualquer elefante escondes-te nas frestas do assoalho fazendo-me molhar as cuecas.
Espermática longitude latitude menstrual oceanos licores íntimos mares.
Quis beijar-te a boca eterna molhada como me ouvisses histórias de um passado que não tive de lugares que não vi ou estive.
Queria não ter um filho teu que não nos conhecêssemos não ter te parido o sangue contra a cama a cama sob o hímen e o hímen sobre o eu o me o mim.
Vou querer beijar tua boca morta quando fores um feixe de rugas e pés de galinha como quando me contavas histórias de cabelos brancos sem dentes esquecendo os detalhes emudecendo.
Quando me contares as histórias que te contei.
O tapa e a cara nasceram um para o outro o encaixe é perfeito face e mão são gémeas siamesas seja no afecto ou na força venha por sexo ou pavor concavas e convexas encaixam-se perfeitamente desiguais.
É preciso que alguém tome coragem e vá à frente faça-se o abre alas empunhe a espada e grite.
Alguém que almeje melhor ou pelo menos esteja livre para fazer o que é preciso que possa reconhecer em seu trabalho a possibilidade do crescimento não permitindo que o dia seguinte seja a cópia do anteontem e daí por diante.
É preciso saber que quem sabe faz quem não sabe faz-se chefe.

PAR - PT

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tempus Fugit


Ele foi lá, não queria, mas foi, pegou o táxi, pegou não, entrou. Pagou. A casa era velha, paredes com desenhos mofados, de infinitos anos e moradores desleixados, chave na porta, entrou, parou no centro da sala, havia fantasmas no sótão, estava certo, caminhou corredor acima, ou abaixo, isto pouco importa, abriu uma, depois outra, porta. Respirou os espíritos do lugar, sentiu-se penetrado, invadido, almas e pó colaram-se à mucosa nasal, sinusite macabra de mortes esquecidas. Profanava a casa com olhos densos de busca e desânimo. O eco dos anos perfurava tímpanos, retinas, um leve rumor de folhas secas arquivadas na memória, fogo a crepitar, certidões de nascimento e óbitos. O papel de parede descolara-se e, pendurado, estabilizava-se me caracóis viciados em cola.
Seu sangue corria pelas paredes da cozinha, execução de galinhas e canjas quentes de noites febris. Havia pútrido vazio cheiro, de frutas, nos azulejos e moscas renitentes alimentavam-se das lembranças de restos de amor e comida, estranhamente não viu ratos, talvez não tivessem aguentado a ausência do arrastar de cadeiras e gritos.
Pelos vidros de pacientes teias de aranhas divisava, vez por outra, roseiras secas, flor nenhuma espinhos muitos, onde muitas vezes deixara pedaços de renda, pedaços de pele, brincadeiras de infância. Viu-se vestido de marinheiro, a navegar pela casa, perseguido por um irmão ou um chinelo, num impulso correu de novo pela casa, máquina do tempo, tempo parado, parou à porta do antigo quarto, ameaçou, não abriu, meia volta, a lágrima devorou em linha recta o pó da face.
Chave na porta, saiu, parou na calçada, entrou no táxi, não olhou para trás. A casa ficou, colada ao retrovisor, ele foi lá, não queria mas foi. Dedos nas teclas, sons electrónicos, sim, sim, Sr. Fulano… Gostava de saber se sua proposta ainda está de pé… Sim, pois é, eu decidi vender… a casa…
Ali estava ele, estranho de si mesmo, fizera uma retirada da memória e, agora, depositava no banco. Foi lá, não queria, mas foi.

PAR - PT

FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES”

FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES” As dores, essas que não passam, essas que se instalam como raízes de ferro, fazem-nos mais do que so...