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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Arcano 13



Magmático tesão sem sentido a brotar em pus do corpo morto esquecido na cristaleira sob teus pés o vidro das minhas retinas resistia imperturbável como um navio que afunda num mar de gozo de pantera negra arrepios.
O caminhão da mudança chegou.
A cristaleira era da minha avó muito cuidado com ela.
Mandaste mudar o número do telefone?
Deste a nova morada aos meus inimigos?
Não te esqueças do teu amante digo nosso ao final das contas ele sustenta aos dois.
Acho que a cristaleira não vai caber na sala…
Merda o espelho rachou são sete anos de convivência para nós e para os outros toquei no verde a sorte é minha.
Penteia os cabelos antes de sair em devassa tua intimidade não leves material de limpeza não dá sorte dizem…
Onde raios terei eu metido tuas cartas?
Mau presságio virado o treze em arcano maior.
Eles não sabem do mar nem dos peixes morte morte morte ao amor.
Cheiro de peixe e casa nova a rasgar células olfactivas há crianças na casa ao lado vidraças partidas e futebol de rua condomínio fechado e porteiro electrónico.
A cristaleira não cabe ou ela ou eu ou nós a voz dos tempos ecoada na base das paredes rebentamento em teclas de um piano tilintar de cristais embalados pelo vento.
Alucinações e aves de prata cruzam o tecto em revoluções intermináveis aves rapinadoras no umbigo do mundo a sangrar o cordão umbilical a devorar a placenta ébria do útero da mãe dos nossos monstros mofados de paus e pedras nossos ossos vazios a chacoalhar em falhas sísmicas teus fantasmas e meus calmantes a tilintar no gelo dos copos das visitas.
Vamos dormir que as visitas querem ir-se embora.
Coloque os copos na cristaleira.
Vamos ninar nossas incompletudes e formas astrais desvanecer as auras escorregar na seda dos edredões e uivar dar vivas uivar…
Casa nova vida velha vida imensa e curta.
A vida dura a erecção de um pénis um pau duro um acto um facto história cíclica.
A vida é uma beata no cinzeiro de Deus. (Sobre uma cristaleira.)

PAR - PT

Conto com Desconto



Quero ainda beijar tua boca provisória como me contasses histórias de tempos futuros de sais de rendas e saltos altos.
Busco ainda possuir-te pela metade desde que por inteiro reflectir-te como narcisista espelho mostrar-te tua carne rija salivar-te a seco toda.
Vou por teu nome na boca do sapo e costurá-la depois beijá-lo até fazer-se príncipe em desencanto.
Queria gritar nos teus ouvidos até ecoar teu sexo em vibratória inércia apaixonada.
Mas como qualquer elefante escondes-te nas frestas do assoalho fazendo-me molhar as cuecas.
Espermática longitude latitude menstrual oceanos licores íntimos mares.
Quis beijar-te a boca eterna molhada como me ouvisses histórias de um passado que não tive de lugares que não vi ou estive.
Queria não ter um filho teu que não nos conhecêssemos não ter te parido o sangue contra a cama a cama sob o hímen e o hímen sobre o eu o me o mim.
Vou querer beijar tua boca morta quando fores um feixe de rugas e pés de galinha como quando me contavas histórias de cabelos brancos sem dentes esquecendo os detalhes emudecendo.
Quando me contares as histórias que te contei.
O tapa e a cara nasceram um para o outro o encaixe é perfeito face e mão são gémeas siamesas seja no afecto ou na força venha por sexo ou pavor concavas e convexas encaixam-se perfeitamente desiguais.
É preciso que alguém tome coragem e vá à frente faça-se o abre alas empunhe a espada e grite.
Alguém que almeje melhor ou pelo menos esteja livre para fazer o que é preciso que possa reconhecer em seu trabalho a possibilidade do crescimento não permitindo que o dia seguinte seja a cópia do anteontem e daí por diante.
É preciso saber que quem sabe faz quem não sabe faz-se chefe.

PAR - PT

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tempus Fugit


Ele foi lá, não queria, mas foi, pegou o táxi, pegou não, entrou. Pagou. A casa era velha, paredes com desenhos mofados, de infinitos anos e moradores desleixados, chave na porta, entrou, parou no centro da sala, havia fantasmas no sótão, estava certo, caminhou corredor acima, ou abaixo, isto pouco importa, abriu uma, depois outra, porta. Respirou os espíritos do lugar, sentiu-se penetrado, invadido, almas e pó colaram-se à mucosa nasal, sinusite macabra de mortes esquecidas. Profanava a casa com olhos densos de busca e desânimo. O eco dos anos perfurava tímpanos, retinas, um leve rumor de folhas secas arquivadas na memória, fogo a crepitar, certidões de nascimento e óbitos. O papel de parede descolara-se e, pendurado, estabilizava-se me caracóis viciados em cola.
Seu sangue corria pelas paredes da cozinha, execução de galinhas e canjas quentes de noites febris. Havia pútrido vazio cheiro, de frutas, nos azulejos e moscas renitentes alimentavam-se das lembranças de restos de amor e comida, estranhamente não viu ratos, talvez não tivessem aguentado a ausência do arrastar de cadeiras e gritos.
Pelos vidros de pacientes teias de aranhas divisava, vez por outra, roseiras secas, flor nenhuma espinhos muitos, onde muitas vezes deixara pedaços de renda, pedaços de pele, brincadeiras de infância. Viu-se vestido de marinheiro, a navegar pela casa, perseguido por um irmão ou um chinelo, num impulso correu de novo pela casa, máquina do tempo, tempo parado, parou à porta do antigo quarto, ameaçou, não abriu, meia volta, a lágrima devorou em linha recta o pó da face.
Chave na porta, saiu, parou na calçada, entrou no táxi, não olhou para trás. A casa ficou, colada ao retrovisor, ele foi lá, não queria mas foi. Dedos nas teclas, sons electrónicos, sim, sim, Sr. Fulano… Gostava de saber se sua proposta ainda está de pé… Sim, pois é, eu decidi vender… a casa…
Ali estava ele, estranho de si mesmo, fizera uma retirada da memória e, agora, depositava no banco. Foi lá, não queria, mas foi.

PAR - PT

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ignorar o Caos

Saiu de cima do outro devagar, saiu de dentro dele contrariado, tinham feito um amor alongado, tinham compartilhado seus corpos de forma egoísta, como se quisessem engolir-se mutuamente; para Fulano, aquele era um momento há muito desejado, esperado e temido. Estava socialmente restringido ao amor pelas mulheres, àquelas sedas desconhecidas, àqueles corpos diferentes do seu, e, mais que tudo à necessidade de suprir as necessidades que ele mesmo jamais conheceria, por serem as delas, e ele, como todo o homem, estava proibido de penetrar... podia penetrar seus corpos, nunca lhes saberia os desejos, ainda pior, jamais lhes conheceria a saciedade. Tinha aprendido da sociedade que o único amor possível, o aceitável, era entre os corpos diferentes, que só na heterogenia seria feliz, e, por muito tempo, tempo demais, sabia-o agora... tinha perdido tempo, tempo demais, a fugir de si mesmo e a fugir de seu próprio medo. Fugir por uma estrada fácil e recta! Uma estrada daquelas monótonas, que se apanha todos os dias, automaticamente. Monótonas e obrigatórias, rectas, sem desvios, sem curvas ou alternativas... onde se passa pelos outros, acelerados, que a seguem como nós, convictos de que é a única, a certa, a que todos tomam como certa... que só alguns abandonam por outras direcções. Mudam de objectivo, mesmo que todas as placas, todos os sinais, todas as beatas, tudo diga que é aquela. Fulano sabe que ela existe, mas já não está tão certo de que seja a melhor, ou quem sabe até a mais fiável. Sabe, sim, que é depois de conhecer as vias alternativas que ficou mais completo, mais homem, mais humano. Isto é certo... Sabia, agora, que o amor é um sentimento, uma coisa que se guarda para nós mesmos, que não se é capaz de dividir com um outro... Olhou para Beltrano, deitado de bruços na cama, com a pele arrepiada, um corpo masculino e inconfundível, como o seu, com seus cheiros secretos e seus pelos... seus apêndices. Achava, agora, estranho, nunca ter-se preocupado com aquilo, com a eterna questão de sentir-se ou não atraído por um corpo igual ao dele. Com desejos e necessidades que ele conhece tão bem, assim como conhece seu próprio corpo, Fulano sabia de cor o corpo de Beltrano, um corpo como o dele... Agora, depois de desfrutá-lo, sentia-se completo, sentia-se um homem sem falhas; Tinha estado dentro dele e tinha-o tido dentro de si. Releu, naquela pele, o texto das horas que passaram, juntos, a amar-se. Constatou, para si mesmo, sem qualquer ponta de estranhamento, que sempre desejara, secretamente, um corpo igual ao seu para dividir sensações. Constatou, sem grandes sustos, a condição básica e plurissexual da existência; Não estava a abrir mão dos corpos diferentes, estava a abrir o leque de suas possibilidades. Deitou-se, outra vez, ao lado daquele corpo tão igual ao seu e decidiu que o amava, sem culpas e sem pecados e, melhor ainda, sem exclusividade. Virou-se e disse-lhe ao ouvido: - “Até hoje, nunca tinha tido amor por outro homem!...”



PAR - PT

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

04.11.2010

As aves tentam desesperadamente sobrepor o barulho das madeiras, no montar e desmontar da feira, quatro da madrugada e os trinados sufocam nas janelas dos andares mais baixos. Às seis: - Olha o peixe! Às oito: - Flores frescas! Muita água e esgoto pouco, muitas crianças, petrificadas de fome, a trazer os limões e os alhos, o vento, a soprar, arranha os olhos. Transito engarrafado nos becos, ervas, garrafadas, uma ópera estranha. Um vai e vem de mercadorias e corpos suados, o tempo arrasta-se em chinelos, alguns de pares trocados. Vista da janela a feira é abstracta e geométrica, Piet Mondrian em movimento. Toldos postos lado a lado e rios negros a correrem nos canais, sangue nas veias da cidade, glóbulos vermelhos, beringelas e melancias.
Eu sigo meu Caminho Carnavalesco Vermelho Sangue e Branco Leite e a Plebe Rudíssima soergue-se e Aplaude ainda atónita... Pois Gato e Chocolate, Árvore e Bicicleta, sou nada que se coma, sou nada que se engula, com a leveza dos avestruzes ou a delicadeza das girafas. E tu? Como tens estado minha querida Alforreca? Calaste-te? Engasgaste-te? Foste Engolida pela Turba Ensandecida? Sem registo do poético momentâneo, as batas brancas, as mãos firmes, corte e cura, os filhos das famílias lusas, hispânicas ou ítalas, vestem-se de branco, como enfermeiros, como colírio para os olhos, como o sal atirado sobre as feridas abertas na pele negra dos filhos afros. As feiras são pústulas de peixes e flores, têm indefectível aroma de frutas no chão, de frutos da terra. No fim, rosas e bagres, unem-se em ballets de lixeiras e de vassouras. Alas de mangueiras de águas, marés-altas de peixes mortos, marés vermelhas de pétalas e tomates. A feira fica no ar, entra pelas narinas, na memória olfactiva que não mais distingue o milagre dos peixes, multiplicados em lírios brancos. Eu sigo o meu caminho, eu sou uma mulher japonesa negra, homossexual e judia que reside num bairro de lata dos arredores de Berlim.


PAR - PT

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

27.10.2010



Era uma vez, três Alice, que resolveram sair da casa dos pais e ir morar sozinhas. Alice de Oz, construiu um palácio cor-de-rosa à beira-mar numa praia remota da Tailândia. Alice de Neve, fez um castelo de Areia nas nuvens que pairam sobre as Ilhas Maurício. Alice Joana Catarina Maria Isabel Sandra Margarida Elisabete etc e tal, mandou fazer um castelo de cartas na floresta tropical húmida do País das Maravilhas.
Acontece que as Alice tinham uma inimiga em comum, que lhes queria comer os fígados crus ao Pequeno-almoço. A Bruxa Calipígia, uma mulher perversa, que com a ajuda de artes mágicas iria, brevemente, tentar deitar por terra as moradas, e os sonhos glitter, das nossas pequenas e bio-desagradáveis princesas.
Porém, e não se pode deixar de o dizer, por sorte, a natureza incumbiu-se de distorcer os desejos de Cali e reduzir-lhe, drasticamente, os esforços.
Como consequências óbvias do aquecimento global, que todos sentimos, quase todos fingimos não sentir e aos quais muito poucos, no todo, sobreviverão.  
Um tsunami violento no Oceano Pacífico e um Incêndio de proporções infernais, na ressecada floresta; obrigaram as duas Alice, vítimas sobreviventes, a pedir asilo político, e abrigo à sua amiga Neve, nos Trópicos.
Pígia - que é a segunda possibilidade de abreviação do nome da nossa estimada e poderosa feiticeira - considerou este repentino empurrão das forças naturais, aos seus sonhos, como uma golpada de sorte sem precedentes e aproveitando-se de suas capacidades licantrópicas, aguardou, pacientemente, a vindoura lua cheia...


PAR - PT 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Thomas Rowlandson

Thomas Rowlandson 
14 de Julho de 1756 a 22 de Abril de 1827

(Feliz Aniversário)



Thomas Rowlandson foi um desenhista 
satírico-erótico inglês,e os seus desenhos eram 
feitos geralmente em linhas negras com bico de pena, e 
delicadamente preenchidos com aguadas de cor. 
Eles eram, então, gravados pelo artista nas 
placas de cobre, e depois gravadas em 
água-tinta, normalmente por um gravador profissional, 
sendo depois as impressões coloridas 
e finalizadas à mão. Como designer, ele 
caracteriza-se pela maior facilidade de desenho 
e a qualidade de sua arte sofreu por uma certa 
pressa e excesso de produção. 
Ele tratou menos freqüentemente da política do 
que o seu contemporâneo feroz, Gillray, mas 
geralmente tocando, com espírito bastante 
delicado, os vários aspectos e incidentes da vida social. 
Seu trabalho mais artístico pode ser encontrado entre os 
desenhos mais cuidadosos de seu período inicial, 
mas mesmo entre as caricaturas exageradas do 
seu trabalho tardio, encontramos indícios de 
que este mestre do humor pode ter atingido a beleza, 
a que ele tivesse aspirado, como assim o quis.



domingo, 11 de julho de 2010

Suzanne Vega

Suzanne Nadine Vega 
11 de Julho de 1959

(Feliz Aniversário)




Tom's Diner

I am sitting
In the morning
At the diner
On the corner

I am waiting
At the counter
For the man
To pour the coffee

And he fills it
Only halfway
And before
I even argue

He is looking
Out the window
At somebody
Coming in

"It is always
Nice to see you"
Says the man
Behind the counter

To the woman
Who has come in
She is shaking
Her umbrella

And I look
The other way
As they are kissing
Their hellos

I'm pretending
Not to see them
Instead
I pour the milk

I open
Up the paper
There's a story
Of an actor

Who had died
While he was drinking
It was no one
I had heard of

And I'm turning
To the horoscope
And looking
For the funnies

When I'm feeling
Someone watching me
And so
I raise my head

There's a woman
On the outside
Looking inside
Does she see me?

No she does not
Really see me
Cause she sees
Her own reflection

And I'm trying
Not to notice
That she's hitching
Up her skirt

And while she's
Straightening her stockings
Her hair
Has gotten wet

Oh, this rain
It will continue
Through the morning
As I'm listening

To the bells
Of the cathedral
I am thinking
Of your voice...

And of the midnight picnic
Once upon a time
Before the rain began...

I finish up my coffee
It's time to catch the train

Suzanne Vega

terça-feira, 1 de junho de 2010

Contexto

Portugal, Trofa, 01 de Junho de 2010.

Tantas lembranças, memórias e recordações, tantos cacos de cristal no chão do estômago, essas fotografias amarelo-negras nas paredes do tórax, e esses recortes de muitos jornais, neurocirurgicamente separados e tão espasmodicamente reagrupados.
Lembrar de amores que desapareceram na correnteza; lembro-me de ter tocado, furtivamente, o teu cotovelo enquanto me contavas um fracasso emocional dos teus. Passo as mãos no topo, vazio, da minha cabeça, a lembrar do tempo em que reclamava de ter que cuidar da cabeleira.  Lembro, também, vagamente, um por-de-sol nas pedras nuas da praia, tuas costas douradas, tuas costas desertas, tuas costas a destilar o sal.
Recrio na boca o seco absoluto do (palato) planalto central e bebo rios de olhares à minha volta... é como se todos os que amei estivessem, sempre, a flutuar sobre a minha cabeça, a cuidar-me, a guardar-me, a impedir-me de esquecer.  Recupero nas narinas as cascas das laranjas que descascava para ti, as sardinhas, as rosas, os enterros e a chuva a pesar nos ombros.
Dei meu coração e, alguns, esqueceram-se de lhe dar corda. Abri o meu peito e, muitos, não me quiseram habitar.  Muidei meus hábitos alimentares e comi meus amores (perfeitos) até vomitar (bulimia romântica).  As memórias a serem regurgitadas e a trazerem à boca o ácido da perda, o oco do esquecimento (alzheimer romântico) e tantas vezes fui eu outros, tentando ser eu mesmo.
Ao fundo, em crescendo, ouço as 33 variações sobre uma valsa de Diabelli, de L.W. Beethoven, versão do Uri Caine.  Lembro-me de passar uma enormidade de tempo a olhar para o diamante no pescoço de Bastet, no British Museum.  Templos inteiros, paredes, tectos, mosaicos, uma profusão de expressões, um excesso de formas.
Podes beijar-me ou dar-me um beijo, a opção é tua, escolhe tu que eu deixo; ou, por outro lado, podes, simplesmente, beijar-me.  Só quero isso, assim, simples e excessivo, um beijo, nem que seja magro, seco (anorexia romântica), roubado (cleptomania romântica), um beijo que desidrate a minha saliva.

Paulo Acacio Ramos


FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES”

FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES” As dores, essas que não passam, essas que se instalam como raízes de ferro, fazem-nos mais do que so...