O Sempre Buriol - Sempre Bem Vindo - Sempre no Sótão
quarta-feira, 16 de março de 2011
16.03.11
estendo-te a mão
levantas-te e cais
entendo-te o não
levantas-te e sais
prendo-te o cão
afastas-te e mais
e vais cada vez
mais cada vez a
mais e cais sem
mão sem cão ou
não levantas-te
e não sabes se
ficas ou se vais...
PAR - PT
As Montadeiras
pergunto-me:
"com a falta de espaço
que há nos tempos de
hoje em dia, aonde é
que estas todas deixaram
ficar os cavalos?"
PAR - PT
DETESTO...Essas Modas...DETESTO
...
terça-feira, 15 de março de 2011
15.03.11
sob o signo de seu turno
as gentinhas
quando vão
ao Senhor Doutor
vestem-se com
suas cores
mais sofridas
pode-se
inclusive ouvir
os tecidos a rasgar
sob o peso da dor
que pretendem
sentir...
e todos sentem
muito!!!
PAR - PT
segunda-feira, 14 de março de 2011
14.03.11
não espero ética
profética
ou ação estética
que venha
de uma qualquer
puta caquética
esquelética
anorética
raquítica
aguardo expectante
sentado na primeira
fila de convidados
para assistir
emocionado
seu fim doloroso
sua morte
lenta
suculenta
nojenta
para poder
aplaudir de pé
vaiar de pé
e depois
calmamente
voltar para casa
e ler um bom livro.
PAR - PT
domingo, 13 de março de 2011
13.03.11
caem os corpos
decepcionados
do alto da torre
jazem atônitos
aos pés do anjo
cego
caem
caem
caem
nada
lhes pára as quedas
e caem...
PAR - PT
sábado, 12 de março de 2011
12.03.11
balas perdidas
tremores de pavor
artefatos interplanetários
cosmonautas microscópicos
centrais nucleares
sangue que goteja
sangue que goteja
borbotões
...
reticências.
PAR - PT
sexta-feira, 11 de março de 2011
11.03.11
antúrios noturnos
que choram
diademas na
noite proscrita
confundem as asas
dos quirópteros
com carinhos
de olvido
no vapor dos
vidros
das janelas
rodar moínho
nas águas
perplexas
e o gelo recobre
a derme encolhe
recolhe partículas
do pó dos olhos
dos escaravelhos
adormecidos
nas lápides
dos cemitérios
silêncios agudos
a rasgar o cerne
das relíquias!
PAR - PT
quinta-feira, 10 de março de 2011
10.03.11
escrita esquecida
nunca lida
abandonada
ao sabor das marés
poesia cavada na areia
ouvidos surdos
onde ecoa a sereia e
as labaredas lambem
o labirinto lentamente
fogo suicida que
dispara sobre si mesmo
que se consome e chama
os nomes que tua
lembrança elegera
para presentear
com a amnésia
memória apologética
de impertinentes pseudópodos
sonhava que era perseguido
e corria sem sair
do lugar
e ao desviar o olhar
já não havia alguém
para tocar e fugir.
PAR - PT
quarta-feira, 9 de março de 2011
09.03.11
Sobre a Eternidade das Paixões
acordar todos os dias
ancorado ao corpo
do homem que amo
ser porto que inseguro
abraça o barco
ficar sempre ancorado
por um minuto além
do que se possa...
PAR - PT
terça-feira, 8 de março de 2011
08.03.11
rogo-te a praga
de um dia
tua pele vazia
sentir nas camadas
adiposas da emoção
o calafrio
o arrepio
o alívio
do fogo que corta
faca amolada
um fogo que derreta
o frio do olhar
com que maltratas
as solas
dos meus pés.
PAR - PT
segunda-feira, 7 de março de 2011
07.03.11
O sol penetrou pelas esquadrias alumínicas da sala de espera e sorrateiro tocou a pele da menina.
Talvez por estranheza ou despreparo ela mexeu-se, incômoda,
abafava-se no calor da sala de espera.
Em dicotômica espera, a esperar para eliminar, era preciso eliminar a possibilidade de esperar e para isso há que desenvolver uma paciência halterofilística...
Em pé na calçada, fumando uma hora de espera, e ele demorava, talvez nem viesse, quem dera ele nem existisse, talvez...
Ele era impaciente, de carinhos telegráficos, frases de telegrama, a barba arranahva o pescoço, ele afoito em cima a arfar pesado, mãos grandes e fortes, ela ficava segura e violentada em seus braços, ele a tinha toda, possuía-a rápido como tivesse medo de morrer antes do fim.
Entrou no consultório, deitou-se exame, sangue e urina... esperou três dias por um resultado... positivo... positivo... pensou em tirar, pensou em pensar.
Esperou a cabeça para de rodar, esperou o corpo arredondar, esperou o tempo passar.
As dores vieram dilatadas, deixaram passar e foram-se...
Esperou mamar, esperou que todos saíssem, esperou a queda livre terminar... não esperou muito pela escuridão.
Sobre a mesa, só, um bilhete esperava alguém chegar:
"Pai, cuide, o melhor que puder, do nosso filho...
Um beijo
Tua filha"
PAR - PT
domingo, 6 de março de 2011
06.03.11
alimenta-me aquilo
que em ti não se pode comer
porque pouco ou venenoso
sei lá... tipo salada
de agrião
lobo que alimenta matilha
lobo que passa a fome
da matilha
um lobo simplesmente
um lobo
aninhado no lado oculto da lua
num uivo que amplifica
o brilho das estrelas!
PAR - PT
sábado, 5 de março de 2011
05.02.11
as meninas dos meus olhos
flutuavam absortas
na tona do mar ciano
plumbeo
película cristalina
do olhar coralino
- Betty Davis' Eyes -
piramidal esfíngico
as pupilas dos meus olhos
saíram para passear
e levaram
as papilas da minha
lembrança com elas
um sal de memórias
gustativas
um beber o mar íntimo
inteiro
azul verde cinzento
maré vermelha
humor aquoso
pássaro negro a adejar
procelas
a lacrimejar
areias praias penas
PAR - PT
sexta-feira, 4 de março de 2011
Moacyr Scliar
23 de Março de 1937 a 27 de Fevereiro de 2011
é com imensa tristeza que me despeço,
aqui, de um dos meus escritores favoritos...
04.03.11
há um brilho
borboleta
nos olhos dele
de que nunca
esquecerei
daquele que se ouve
ao longe
mesmo quando não está
mas reverbera
nos lábios
qual ciclone
talharim aos quatro queijos
com sálvia
há uma brisa
oceano
nos cabelos dele
que não me deixa
dormir
passa a noite toda
a sussurrar-me
aos ouvidos
PAR - PT
quinta-feira, 3 de março de 2011
03.03.11
houve aves
nos meus tempos
de criança
que se ouvia
gaios poupas piscos
carriças toutinegras
pintassilgos
pintarroxos
lembro-me deles
no quintal
enquanto mastigava
tudo que me vinha
às mãos
couves flores joaninhas
havia aves
a voar
sobre a minha cabeça
quando era
mais pequeno
pêgas cucos corvos
andorinhas
rouxinóis
estou muito mais
velho agora
e as aves parecem
ter-se cansado
ter-se calado
há tantos outonos.
PAR - PT
quarta-feira, 2 de março de 2011
02.03.11
tropecei tantas vezes
nas nuvens
que o chão não parece
tão duro
que deixou de ser
difícil enumerar
cada tijolo do muro
tropecei tantas vezes
que o céu parece
cada vez mais azul
e o norte se faz
mais e mais sul
tão longe
tropecei tantas vezes
em mim mesmo
que agora tenho
muito melhor noção
do todo...
PAR - PT
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