segunda-feira, 18 de abril de 2011

18.04.11



dá-me a folha do teu tempo
dá-me
dá-me
dá-me
a folha do teu tempo
o fio do teu tampão
a falha de santo André
dá-me
dá-me
dá-me
a honra de não ocupar 
os teus tempos livres
dá-me o ócio dos vazios
dá-me o ácido dos silêncios
que partilhamos
dá-me dá-me dá-me
dá-me aquilo
que tens a certeza
que não não deste
nunca a mais ninguém...


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The Model - Teaser

domingo, 17 de abril de 2011

17.04.11



a fruta deu-se à boca 
contraída e contrariada
não era fruta que se coma
impunemente
queria ser sabor
e cheiro
queria ser provada
e escorrer sedosa
no queixo
manchar a blusa
não queria ser fruta
desculpa de pecados
razão de exílios
queria ser fruta que fizesse
dormir para sempre
queria ser fruta que se
negasse
à mordida.


PAR - PT

sábado, 16 de abril de 2011

16.04.11



apostai no disparate
que vos assenta muito bem
encostai vosso corpo
ao outro morto dos santinhos
observai tudo deixar de ser
como era antes de vir a ser
doai vosso corpo à ciência
ajudai a aprofundar 
o desconhecimento
afundai vosso braço
até ao cotovelo
na vagina de uma vaca
lavai vossa cloaca
na urina das divindades
nos rios das terras santas
lambei meticulosamente
os vasos sanitários
das latrinas de todos
os templos que encontrardes
deixai arder em vossas veias
o açúcar das apostasias.


PAR - PT

sexta-feira, 15 de abril de 2011

15.04.11



papel dourado 
que envolve 
os bombons...


as pessoas
não choram
por serem
fracas
mas sim
por que foram
fortes
tempo demais
...


os leões devoram
sua presa
as hienas aguardam
os abutres aguardam
as moscas aguardam
os vírus aguardam...


passa-se tempo demais
o papel dourado
perde
vagarosamente
o tom dourado.


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quinta-feira, 14 de abril de 2011

14.04.11



desacelerei a órbita dos planetas
trânsito retrogrado de plutão
e as borboletas vão deixando
escamas em todas as superfícies
suas assinaturas iridescentes
a provocar intempéries onde passem
adormecem os feitiços à beira
dos umbrais e nas esquinas
estampidos de fogos artificiais
dias de horários veranistas oficiais
oficinas de execução de serviços
para construção técnico-profissional
de unidades integrantes de naves espaciais...


PAR - PT

quarta-feira, 13 de abril de 2011

13.04.11



Se pensarmos na máscara 
como alter-ego 
ou o outro eu, 
logo personagem, 
aquele que somos 
sem que se veja, 
a que alguns chamam ânima, 
aquilo que nos anima 
e nos dá a chama, 
e os olhos como portas 
para a alma, 
ou o eu animado pela chama, 
e pensarmos que só somos 
a chama que nos brilha nos olhos, 
que nos superamos 
e fazemos ler pelos olhos, 
únicos pontos de verdade 
nas máscaras diárias 
de repressão de superego, 
então os Olhos estão lá, 
podes vê-los no centro 
da máscara 
com suas chamas acesas 
e animadas em mim, 
em ti e em todos, 
logo penso que a máscara vale 
como forma de atribuir olhos... 
a quem não os tem
(Panos para mangas 
e pernas para que te quero!)


PAR - PT

terça-feira, 12 de abril de 2011

12.04.11



perco-me no labirinto
substituo-me aos deuses
abdico da orientação
parca
abro mão da tranquilidade
paradisíaca
aminoácida
exemplar metáfora
da real contradição humana
deifico-me
faço-me órfão de mim
sem bússola
sem âncora
agravo-me em minha
cegueira
e pago o preço
da solidão
mundo indiferente
silêncio do cosmos
condição ainda mais
absurda que o vazio
que cerca o indivíduo
isolamento de semelhantes
cujos destinos estão
ligados entre si
defesa da teoria
imediatista
dos prazeres efémeros
definidos pelo princípio:
"dia de tudo,
véspera de nada..."


PAR - PT

segunda-feira, 11 de abril de 2011

11.04.11



quem vem lá?
quem vem lá, 
pergunta
a sombra do vento
que bate à porta
e chega no vento
a voz do trovador
troveja nos olhos
a luz de um dia
que derrete na noite
todos os dedos
apontam o norte
mas ninguém sai
ninguém parte
já não há quem viva
o drama
as vozes dos deuses
que trouxe o vento
congelaram actores
deixaram todos 
adormecidos
só o contínuo 
curva-se ainda
para apanhar
as palavras.


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Sagração


Quando ias com vontade...
já eu voltava com saudade.

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domingo, 10 de abril de 2011

10.04.11



o homem
pós-moderno
reproduz
ao infinito
o que já lá
estava
já foi visto
e agora
multiplica-se
como uma
célula cancerígena
deformidade
do original
espelho partido
serial killer
narcisista
corpo morto
de Jacinto
entre o Zéfiro
e Apolo
vítima inocente
dos jogos interditos!


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sábado, 9 de abril de 2011

09.04.11



e depois água
oceanos a cair
sobre o cabelo
a cobrir as costas
a molhar os pés
amo olhar os pés
molhados de mar
os pés molhados de amar
sentar na areia
e assistir os pés
a entrar no mar
que passa a língua
nas solas
nos pelos
nas canelas
o mar chove salgado
sobre o cabelo
sobre o oceano
sobre toda a água
cai água que é chuva
e é água
sempre água
eternamente água...


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sexta-feira, 8 de abril de 2011

08.04.11




chegou o tempo das cerejeiras
perfumes brancos
e os céus imaculados
sem satélites artificiais
e possibilidades reduzidas
de precipitação
máscaras que caem...
personagens descaracterizadas
um grama de tempo
no bordo da vela que apaga
palco vazio cena aberta
frutos vermelhos que beijam
o arco do céu da boca
flores descortinadas e vento
verde a arreganhar narinas
os cruzados retornam
muitos anos depois
com saudades dos cheiros
das cerejeiras
e das colunas dos claustros
só Ulisses não volta
só, Penélope espera
só faz e desfaz
as noites que se fazem dias
Penélope definha esperanças
alimentada de eminências
de retorno
do caos do retorno
todos os corpos atraídos
pelo canto da sereia
têm tendência
a retornar à inércia
aceleração constante
retorno à origem
trabalho nulo
cruzadas
via crucis delenda Cartago
contagem recessiva
marcha lenta
um império inteiro
no bolso da gabardina
e a comissão de frente
evolui
apresenta seus enredos
e os dedos do prestidigitador
enregelados
engelhados
tortos como as garras das
Hárpias
o som das liras
violinos e berimbaus
corpo seco teso e torto
corpo belo corpo morto
procissão de carpideiras
stabat mater dolorosa
aríetes
catapultas
panóplia
generais directores de bateria
Faraó de Mestre-sala
Astronauta Porta-bandeira
escola de samba Mandarim
apnéia paranóica
mulheres-girafa árvores-garrafa
bandeiras despregadas
as fronteiras invadidas
catedrais submersas
e cerejeiras em flor
enchem o céu com nuvens
de pétalas brancas
os frutos estalam
vermelhos
como o canto dos monges
a urdir tapeçarias eternas
para contar da ausência 
dos heróis...


PAR - PT

quinta-feira, 7 de abril de 2011

07.04.11



um corpo nas mãos
resvala atónito
e guarda os segredos
as mãos guardam 
nas unhas
a pele rasgada do corpo
as mãos levam à boca
as partes do corpo
um corpo nas mãos
despedaça-se
dilui-se
esfuma-se lento
as mãos tremem
as mãos urdem
caminhos na pele
as mãos fazem
do corpo o que querem
cuidam
protegem e ferem
as mãos são donas do corpo
que é dono das mãos
as mãos são escravas
que o corpo leva com ele
tatuadas no vazio
de sua pele
o corpo lava-se com as mãos
o corpo abusa
o corpo usa as mãos
para livrar-se
da sensação de posse
que lhe deixaram as mãos...


PAR - PT

quarta-feira, 6 de abril de 2011

06.04.11



queremos tê-lo
queremos lê-lo
queremos comê-lo com as mãos
um corpo nas mãos
escapa etéreo
e separa os dedos
um corpo desce uma escada
tão mecânico
tão absurdo e artesanal
um corpo escapa-nos prosaico
mágico e cínico
as mãos 
tacteiam o ar à volta
o mar em torno
as mãos procuram
um ponto para fixar
sua atenção
os tendões do corpo
são os tendões dos dedos
que explodem nas mãos
que esticam os tendões
do corpo...


PAR - PT

Filosofias

Como dizia a Gretchen:



...Only you, you better all, I shake it up, cause awh!l
I need a man and my body is for you, oh, yes
Oh I, I love you baby, all the time
I want you, baby, in my mind
I need you, te quiero, Je t'aime, oh
Boom boom, freak le boom boom...

e tudo é tão abundantemente pouco...
PAR - PT

terça-feira, 5 de abril de 2011

Segredos de Liquidificador

eu sou uma 
borbolina 
pequeneira 
e feiticeta...


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O Outro e Eu...



O Outro:
... Se eu te dissesse que estou passando bem, 
estaria mentindo, por que a minha relação não 
esta nada bem, mas não quero bancar o chato 
com ninguém então digo que está tudo bem 
para ser agradável, entende?...
Eu:
Não, não entendo.
Não tens de ser agradável para, nem com, ninguém.
O Outro:
Mas ninguém gosta de teclar ou realmente 
saber como o próximo está...
Eu:
Se algo te chateia, deves dizê-lo honestamente, 
o outro se não quiser saber ou partilhar, 
dizê-lo-á sinceramente também...
O Outro:
sei...
Mas não quero que fique com uma impressão 
ruim ao meu respeito ...
Eu:
Que impressão ruim podia eu ter a teu respeito?
O Outro:
De uma pessoa negativista...
Eu:
Baseado em quê, posso eu, ou outra pessoa qualquer, 
fazer juízos de valor com relação a ti e às tuas relações, 
se não estamos, minimamente, envolvidos nelas?
O Outro:
Mas é uma fase de montanha russa que só parece descer
Eu:
Como todas a relações do mundo...
O Outro:
Sei que não... mas as pessoas aqui correm muito 
de pessoas que estão na minha situação
Eu:
A tua não é melhor, nem pior... 
apesar de, como todas, ser única.
O Outro:
Sei… não estou bem...fico chateado, tentando buscar 
razões pelo qual estou passando, por que não fiz nada... 
e paro, fico chorando e coisa e tal... 
estou me sentindo fraco, sem chão,...
Eu:
Isso tudo passará, quer queiras, quer não...
Quer fiqueis juntos ou não...
Isso TUDO passará.
O tempo é terrível... faz esquecer e cura todas as feridas.
Na verdade, o Tempo é uma enorme Cicatriz no Espaço.
O outro:
hum... mas o pior que não quero que essa nossa relação 
chegue ao fim...
Eu:
Não sei se sabes, mas o que tu, individualmente, queres, 
ou o outro, individualmente, quer... não importa nada, 
o que importa e será verdadeiro é aquilo que os dois 
conseguirem acordar entre si, seja em termos 
de continuidade ou de finalidade.
O outro:
Eu sei...
Eu:
Então... de nada adianta sofrer.
Encarar, aprofundar e resolver são as únicas saídas possíveis.
O Outro:
Estou sentindo uma dor do cacete Paulo... 
está doendo muito...
Eu:
A dor nos ensina a sobreviver...
O Outro:
Mais do que eu já sofri... cara, pode parecer que não... 
mas coleciono sofrimento o suficiente para dar aulas... 
não tenho mais o que aprender...
Eu:
Então inscreve-te num concurso, vai dar aulas de sofrimento 
e tira algum lucro disso tudo... de graça é que não... 
aliás, de graça NADA...

Via MSN, numa Tarde de Terça-feira...

05.04.11



sorvemo-lo
observamo-lo estar
largamo-lo no ar
um corpo é o vazio
que enche as mãos
buscamo-lo doce
apertamo-lo
tiramos-lhe o ar
um corpo nas mãos
é um produto de um roubo
é um assalto à mão armada
um corpo é uma bomba
que explode nas mãos
que se mistura
solúvel
ao suor das mãos
um corpo é uma ferida 
exposta
um corpo é uma cicatriz
eterna
uma tremedeira
uma obra de arte
tão antiga e tão moderna
olhamo-lo
fazemo-lo estar
obrigamo-lo a ficar
entre as mãos
a unir-se ao vazio
e ficar escrito
nas palmas das mãos...


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segunda-feira, 4 de abril de 2011

04.04.11



um corpo nas mãos
escorre volátil e
desidrata a pele
tocamo-lo
deixamo-lo estar
queremo-lo apropriar
respiramos o ar
que se lhe exala
lambemos-lhe as gotas
que cobrem os pelos
um vazio estranho
habita o espaço
entre o corpo 
e as mãos
um vazio concreto
que enche as mãos
a boca e os poros
um vazio táctil
escorre volúvel
e delata a pele
o corpo dilata-se
no vazio e enche
as mãos...


PAR - PT

domingo, 3 de abril de 2011

03.04.11


As Palavras são as Palavras e são…
Palavras para quê, 
porque palavras, 
se elas perderam seu sentido, 
perderam significados, 
mudaram seu estado 
e deixaram de ter domínio 
sobre a comunicação. (?) 

Essas coisas cheias de letras, 

essas letras tão cheias de vazio 
e o vazio que ocupa todo o espaço.

As palavras perderam seu reinado 

para as imagens e estas estão 
em todos os lados, 
as imagens que compreendidas, 
ou não, estão dentro das palavras, 
ao lado delas, por cima delas, as imagens 
são palavras sem letras, 
são o espelho das almas do nosso século.

As palavras são a mais útil das inutilidades, 

pois permitem dizer, sem querer falar, 
descrever sem explicar e discursar 
sem estar a dizer mesmo nada.

As palavras, essas desterradas, 

essas coisinhas tão caras, 
que não tem mais nada, 
que não tem cara, 
que não são mais as nossas caras.

PAR - PT

sábado, 2 de abril de 2011

02.04.11


O amante é um ser que ama, 
um amante é um ser terceiro,
alheio e exterior ao facto de o ser; 
O amante é um auxiliar,
é um actor coadjuvante. 

Alguns são descartáveis
e outros inesquecíveis… 
Há, também, os amantes escondidos, 
os que ninguém sabe que existem,
que habitam as sombras 
dos quartos dos casais,
que se movem silenciosos 
nas dobras dos sonhos e
escorrem como a espuma 
depois do banho. 

Os amantes, quando são, 
divididos pelo casal,
quando são amantes do casal, 
deixam de ser terceiros e
elevam-se no ar, fazem-se o segundo 
de um casal que é dois em um.
Depois, há de dizer adeus 
e seguir caminho.

PAR - PT

sexta-feira, 1 de abril de 2011

01.04.11



borboletas no furacão
barbitúricos em minha mão
festa de são João
sobe sobe balão sóbrio
sombreiro sonda sobrado
passarinho cai do ninho
fica no chão
ali estranhado de si mesmo
bico aberto e tão sozinho
e a quadrilha
casamento na roça
passarinho com fome
minhoca no bico
da fêmea
barbitúricos e borboletas
no olho do furacão.


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FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES”

FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES” As dores, essas que não passam, essas que se instalam como raízes de ferro, fazem-nos mais do que so...