sexta-feira, 8 de abril de 2011

08.04.11




chegou o tempo das cerejeiras
perfumes brancos
e os céus imaculados
sem satélites artificiais
e possibilidades reduzidas
de precipitação
máscaras que caem...
personagens descaracterizadas
um grama de tempo
no bordo da vela que apaga
palco vazio cena aberta
frutos vermelhos que beijam
o arco do céu da boca
flores descortinadas e vento
verde a arreganhar narinas
os cruzados retornam
muitos anos depois
com saudades dos cheiros
das cerejeiras
e das colunas dos claustros
só Ulisses não volta
só, Penélope espera
só faz e desfaz
as noites que se fazem dias
Penélope definha esperanças
alimentada de eminências
de retorno
do caos do retorno
todos os corpos atraídos
pelo canto da sereia
têm tendência
a retornar à inércia
aceleração constante
retorno à origem
trabalho nulo
cruzadas
via crucis delenda Cartago
contagem recessiva
marcha lenta
um império inteiro
no bolso da gabardina
e a comissão de frente
evolui
apresenta seus enredos
e os dedos do prestidigitador
enregelados
engelhados
tortos como as garras das
Hárpias
o som das liras
violinos e berimbaus
corpo seco teso e torto
corpo belo corpo morto
procissão de carpideiras
stabat mater dolorosa
aríetes
catapultas
panóplia
generais directores de bateria
Faraó de Mestre-sala
Astronauta Porta-bandeira
escola de samba Mandarim
apnéia paranóica
mulheres-girafa árvores-garrafa
bandeiras despregadas
as fronteiras invadidas
catedrais submersas
e cerejeiras em flor
enchem o céu com nuvens
de pétalas brancas
os frutos estalam
vermelhos
como o canto dos monges
a urdir tapeçarias eternas
para contar da ausência 
dos heróis...


PAR - PT

1 comentário:

Marcos Burian (Buriol) disse...

Belo, belo. Como dizer algo mais?

Santa Poesia