sexta-feira, 19 de agosto de 2011

19.08.11


Aroeira

Árido e solitário
O sertão assustador
Fere como fogo
Respira o seco do rio
Preso em sua concha
Em espirais eternas

Baixios que se encontram,
Sedentos e grávidos,
À espera de dar vida
A esta terra ardente.

Terra plana de horizontes
De mandacarus que abraçam
Os tórridos raios de sol.

Eu português que sou
Só sei do grande sertão,
As veredas que li noutros.

Não sou poeta-Pessoa
Não posso andar a fingir
Uma qualquer dor
Que não me doa.

Sigo o passo seco,
Ossada exposta,
Que verga ao sol,
Arco de luz,
A rasgar areias.

Deixo-me ser tão seco
Quanto os olhos
De quem aguarda
O pranto-benção das chuvas.

Meu corpo seco
Não traz as plumas
Da Baleia de Graciliano
Nem do cão de João Cabral.


PAR - PT

3 comentários:

____ disse...

O sertão que conheces já é muito...


Muitos nomes a zelar

Graciliano
Fernando Pessoa...

Ando viciado mesmo em João Cabral esses tempos, "Dois parlamentos" é algo que passou batido pra muita gente, ando redescobrindo!


Obs: Acertastes em cheio em "Promontório", muito bonito
Obs 2: Lembro de alguns versos teus,sempre ecoam na minha cabeça, mas infelizmente não consigo achar os originais, me perdi no teu acervo.

Como te fazer lembrar de algo que falava de saudade e do toque do trigal no chão? Se puder manda pra mim, não consigo citar, ficou apenas a "fotografia" dele na minha cabeça.

Abração

Paulo Ramos disse...

26.07.2010 e 23.06.2010 parecem-me ser as mais próximas da tua descrição, entre as minhas publicações... Abraços Grandes.

PAR - PT

PS. Obrigado!!!

Dante Pincelli O velho disse...

“ser tão”



por ser tão árido,
de solina densa,
de natureza íntima,
de coisas miudas,
de espaço vasto,
de vargem rachada,
de dura lida,
de terreiros limpos,
de silêncio de bicho,
de sabedoria de pedra,
de arribação de pomba,
de farinha no prato,
de lentidão do tempo...

por ser tão ressequido,
de pintada na espreita,
de teiú na buraca,
de umbuzeiro carregado,
de gibão de couro de vaca seca,
de oiticica frondosa,
de cangalha no lombo,
de azagaia nos raios do sol,
da légua tirana,
de lama na cacimba,
de espinho na carne...

por ser tão distante
dos meus verdes olhos urbanos,
tudo parece tristeza larga
de peito apertado,
de choro baixinho,
de dor pungente...
mas celebro a vida,
a dura vida reta
dos derradeiros cantões do Brasil...

busco versos escassos de plenitude
e sorriso na poesia seca, sem rima...

Santa Poesia