quarta-feira, 18 de agosto de 2010

18.08.2010



























aperto contra mim
o contraponto
contra-senso contratado
caminho, então, pelas ruas
atrás das minhas desilusões
ou das tuas...
finjo que não sei fingir
que tua presença me atrapalha
e espalho meu olhar na paisagem
faço as pazes comigo
e minto:
- "Não vou mais sofrer!"
e as gaivotas, os pardais
e os incêndios
são só memórias,
são lendas, compêndio
de desespero.

PAR - Trofa - PT

terça-feira, 17 de agosto de 2010

17.08.2010











Não me julgues pelo nervo exposto
pela luz absorvida no rosto
o amor deixou em paz meu fígado
num gesto parco, numa boca pouca
saliva desterrada: beijo, beijo, beijo
falei-te de vacas tranquilamente digestivas
e da erva verde que se pode ver
de longe, tão distante, tão ao sul
a boca cala, chama, cala e queima
inflama incêndio reincidente
a boca apanha no ar, palavras pequenas
abocanha sinais gráficos
a boca digere sem dentes
a boca deita, diz, gere o ato de alimentar
abre-se em túnel e tubular desce ao inferno
anjos de eterna queda
asas que alternam ventos
na eterna ausência dos deuses
sonora tocata barroca
para cuíca, gaita de foles, didjeridu,
contrabaixo e berimbau.

PAR - Trofa - PT

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

16.08.2010




Epistemologia Poética

Simples poesia de sono
Depositada em mão esquecida
Ausência narrativa de tempo
Quem ousaria chamar engano
Se as palavras não são legíveis
E toda a evidência da vida está lá
Ligeira e oblíqua, diagramática
Evocação de galáxia
Algo sintomático, 
como quem quer ver
E escolhe
Esperar e deixar acontecer
Compelido por sonoridades,
Escutar a presença do mistério
A emanar da polifonia amarrada
Implicação de vocábulo e som
Entre o aleatório intervalo de significados
Voz em relevante cromatismo
Insignificantes frases de encontro
Esbater de específicas ondas
Minuciosa parcela que escova o granito
Na densidade das 
Vibrantes Imagens Póstumas
Um mundo verde
Vegetação e bronze árido
Montes muito perto do mar
Obscuras aberrações de flora e fauna
Que estonteiam os oceanógrafos
Por sua infinita variedade evolutiva
Mera sugestão lunar de cume e sombra
Estranho silêncio da atmosfera
Que agora desvanece na fotografia
Deste tão-somente espaço e tempo
Existe somente em seu estado virtual
Encaixe de emblema hipotético
Numa situação em que toda a significação,
Símbolo e sinal
Forma verbal de secreta periferia
Ao contrário de sua margem poética… 
O Poema é intrínseco à máquina e
Cada nota tem uma duração
Que corresponde ao iluminar
De um objecto com
Excedentes de iões
De toda aquela força tecnológica
O Poema é improviso dentro de
Sistema logarítmico
Em troca de energia por conceito.


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domingo, 15 de agosto de 2010

15.08.2010



choravas copiosamente
quando te vi ao virar
da esquina
choravas muito
muitas lágrimas
e teus olhos (chuveirados)
ameaçavam conjuntivite
eu, indefeso, sem saber
o que fazer
- não tenho lenços -
pedi emprestado
o guarda-chuva
de Magritte.(*)

* René Magritte - 21.11.1898 a 15.08.1967

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sábado, 14 de agosto de 2010

14.08.2010









O cheiro flutua no quarto
Aporta em meus pelos
Fica colado aos meus órgãos…
O cheiro penetra-me
Invade meu nariz…
 
Ouço ao longe
O som dos órgãos
A produzir líquidos
Humores densos
Recordo o eco da ejaculação.
 
Gemo em eco aos gemidos
Grito orgasmos
Sobre o corpo
Deito-me quieto e sem ar
Sobre a púbis.

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

13.08.2010





























depois da chuva
de bananas
passei a contar
o tempo
em hortas
as intempéries
tomaram
outros sentidos
ganharam 
novas cores
neve cenoura
granizo milho
e nuvens
de feijão preto
assim
vou caminhando
contra o vento
sem lenço e
com alimento.


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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

11.08.2010























nada contém mais medo
que em baixo da cama
do outro
nunca estivemos lá
nem perto
estivemos horas
no corpo do outro
mas, o pavor
em baixo de sua cama
é um incerto
é uma mosca
é uma invasão
de silêncio no deserto.


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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Vamos pensar, vamos pensar...


 
Nosso tempo vive um momento estranho, em que parece não haver encaixe muito certo deste tempo com o espaço que o envolve, falamos em revolução, movimento, ruptura, mas não atuamos sobre nenhum destes dados, falamos em educação para formar cidadãos livres de convenções e preconceitos, e cada vez mais esbarramos com educadores convencionais e preconceituosos, as grandes empresas educacionais apregoam sua abertura e atendimento diferenciado, quando o que querem é manter-se no topo de um mercado inflacionado e lucrativo, dizem que têm e procuram os melhores profissionais da área, em que um olhar mais atento e aprofundado vai notar que melhor não implica uma didáctica ou um comportamento ético deste profissional mais sim um ser amorfo que coadune com princípios, muitas vezes duvidosos, institucionais, educacionais e até religiosos que somente visam o amoldar de tais profissionais ao seu próprio condicionamento de mundo, em visões de directores e coordenadores retrógrados e inflexíveis, que ao invés de medir as capacidades e conhecimentos de seus supostos melhores profissionais, dão preferência a uma investigação cínica da vida particular dos mesmos, estes por sua vez tentam disfarçar e esconder aquilo que na sua opinião afectaria de maneira negativa a opinião daqueles sobre sua conduta pessoal. Isto afecta de maneira mais directa os profissionais que não têm qualquer medo de ser seres humanos conscientes e preocupados com suas escolhas pessoais de vida, que de maneira nenhuma afectariam sua qualidade profissional e ética. Queremos crer, como educadores que somos, que nosso trabalho é o de melhorar a vida daqueles que connosco trabalham na construção de um saber, mas como construir, se as instituições e seus representantes coroados, nos cerceiam e nos afastam, não de acordo com os resultados do nosso trabalho, mas em conformidade às suas próprias convicções estranhas e bem pouco humanas. Me aguardem... Respeitosos cumprimentos de um Professor – sem muito orgulho disso!!!!


PAR - PT

Asnos


Acho verdadeiramente Incrível
que em pleno Século XXI ainda
haja gente Imbecil o suficiente
para ser Estúpida ao ponto de
dizer a uma criança, a Idiotice 
de que o Azul é para Rapazes
o Cor-de-Rosa é para Raparigas...

e o Verde é para quem?
e o Roxo, o Cor-de-Laranja ou
ainda o Preto?

Cuidado, muito Cuidado...

O Resto



em alavanca
ergui o arco-íris
e devagar
desfiz suas cores
desci os valores
numa avalanche
de matizes
como reflexo
de ninguém
em espelho
catatônico.

PAR - PT

10.08.2010













avestruz
aves      traz
3 aves
aves 3
3 aves   atrás
ave atroz
por 1 triz
aves triz
três à vez
3 aves
caem 
             do céu
e o céu
cai-lhes atrás
truz
truz
truz
avestruz


PAR - Trofa - PT

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Klaatu Barada Nikto

Fala-se tanto da necessidade 
de deixar um planeta melhor 
para os nossos filhos e, 
esquece-se da urgência 
de deixarmos filhos melhores 
para o nosso planeta.


(homenagem a Patricia Neal - 20 Janeiro 1926 – 08 Agosto 2010)

Vermelho




voo baixo
sol de dia pleno
a varrer
pastos
desertos e margens
céu aberto
olhar discreto
bicho morto
a decompor-se
a tornar-se
luz e sombra.

PAR - PT

09.08.2010




Para dores
Nas costas
Sexo anal.
Para as
Dos dentes
Sexo Oral
Para os anéis
De prata
Punheta
Para os
De ouro
Roupas
De couro
Para os fracos
Sadomasoquismo
E aos fortes
Romantismo
O melhor
Para machos
É levar
Nas pregas
Para os feios
Criar regras
O mais
Indicado
É fazer
De lado
Para não
Meter
No buraco
Errado
Para dores
De garganta
Leite
Na boca
Para dores
De ouvido
Leite
No umbigo
Para uma
Rapidinha
Usar a cozinha
Para mais
Demorada
O vão
Das escadas.
Para qualquer dor
Música de elevador.


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domingo, 8 de agosto de 2010

Amarelo



























e a flor que fenece
sem viço
pétalas secas
cores desfeitas
a seiva não
corre
morre
a flor
perde a cor
desperdiça-a
murcha só
sem ninguém.


PAR - PT

08.08.2010



























A pele
Depauperada
Das faces
Das actrizes
Das novelas
Coberta de cremes
E outras coisas
Lembra-me
As margens dos rios
Lembra-me a lama
Nas margens dos rios
Tudo naquelas peles
Sabe-me ao leite
Dos vermes
Sabe-me às rugas
Nas peles dos vermes
Anéis de noivado
Cartas secretas
Aquelas peles
Flácidas das faces
Das actrizes
São como as memórias
Dos tempos felizes
Estão ali e ninguém
As vê…
São subtítulos
Que ninguém lê…

PAR - Trofa - PT

sábado, 7 de agosto de 2010

Azul





    




















    E o sangue desce
    a garganta
    o sangue manto
    cobre as costas
    sangue cortina
    a tapar 
    paredes
    pranto
    a correr nas faces
    o sangue 
    coagula nos olhos


    PAR - PT

07.08.2010












Enquanto o fulgor
Da língua incandescente
Se mistura com o zumbido
De néon dos anúncios
Que atraem insectos
Para dentro e fora do calor
Maçador, opressivo
De um verão de trópicos. 

Os colectores descarregam
Conduzidos por alguma força
Invisível ao olho nu…
Para a frente,
Para uma última emoção. 

Desesperado,
Seu arsenal inicial esgotado,
Frenético, a qualquer custo,
Para uma última celebração
Da liberdade.

PAR - Trofa - PT





sexta-feira, 6 de agosto de 2010

06.08.2010


O canto das aves nocturnas
Pedras preciosas no colo da madrugada
Brilhos obscuros de magenta
Beleza rara, inocente e vaidosa.
 
Em versos de poesia
Ou longas frases de prosa
Limão e baunilha nos sonhos
Beleza inesperada da 
Explosão das orquídeas
Cintilações em ciano.
 
Tocata e fuga ao piano
Degredo de caravelas
Gemas claras e densas vibrações de amarelos.
Cabelos nas palmas das mãos
Flautas e violoncelos em corrida desarvorada
Galho de árvore comprida.
Silêncio no ventre da noite
E o rastro de estrela cadente 
Na folha forja-se em verde.
Chicotes e lenços de linho.
 
A vida vista assim deste lado
Sobre este arco da ponte
É como uma enorme dentadura alaranjada
Estás a precisar ir ao dentista…
Lembras-te, então, observador…
 
Pontadas na nuca e olheiras de abano
Essas dormências nos dedos dos pés roxos
A vida vista assim…
Parece longínqua…
Parece parada…
A vida vista assim…
Muitas vezes parece invisível.
 
Dois escaravelhos mortos
Uma guitarra sem cordas
Nenhuma janela, mas muitas cortinas…
 
Dois corpos incompletos
Uma gaiola sem pássaros
Nenhum deserto, mas demasiadas areias…
Duas veias cortadas, uma boca sem a outra
Muitas nozes nenhuns dentes
Dois cortes profundos e uma lamina sem fio
Demasiados suores, mas nem um calafrio.

PAR - Trofa - PT

FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES”

FRAGMENTO: “O QUE NOS FAZEM AS DORES” As dores, essas que não passam, essas que se instalam como raízes de ferro, fazem-nos mais do que so...